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Universidade usa jogos de tabuleiro para ensinar química a detentos

A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) desenvolveu um método para ensinar química em instituições penitenciárias utilizando...

Por Redação Chapecó Mais em 11/04/2021 às 17:36:23

A Universidade Federal do Esp√≠rito Santo (Ufes) desenvolveu um método para ensinar qu√≠mica em institui√ß√Ķes penitenci√°rias utilizando jogos adaptados para a popula√ß√£o adulta. Com a técnica, foi averiguado aumento na aprendizagem e na memoriza√ß√£o do conte√ļdo ensinado. O trabalho, desenvolvido por estudantes de qu√≠mica, foi apresentado em fevereiro deste ano no Simpósio da Organiza√ß√£o Internacional para Educa√ß√£o em Ci√™ncia e Tecnologia (IOSTE, na sigla em ingl√™s), na Coreia do Sul, realizado em formato online.

As autoras do projeto s√£o Iara Koniczna e Larissa Feitosa, que cursaram qu√≠mica na Ufes. Elas usaram jogos feitos de material de papel para ensinar a tabela periódica e as combina√ß√Ķes entre elementos qu√≠micos, entre outros conte√ļdos.

O trabalho, desenvolvido durante o estágio de Iara no Complexo Penitenciário de Xuri, em Vila Velha, foi apresentado na conclusão da graduação, em 2019. A experiência direcionou a carreira de Iara, que segue lecionando para pessoas privadas de liberdade.

A ideia surgiu diante dos desafios que Iara observou durante as aulas que acompanhou no Complexo Penitenci√°rio, que possui uma série de restri√ß√Ķes. N√£o é poss√≠vel, por exemplo, fazer experimentos qu√≠micos.

Em algumas unidades, segundo Iara, os presos n√£o podem sequer levar os livros para as celas para estudar, nem ter acesso a l√°pis fora dos hor√°rios de aula. "Tem sempre o mesmo problema, o esquecimento. Com o jogo, eles acabam fazendo mais conex√Ķes e conseguem ter melhor aprendizado e melhor memoriza√ß√£o a respeito do conte√ļdo trabalhado", diz Iara.

As estudantes basearam-se no jogo de tabuleiro Tabela Maluca, desenvolvido em pesquisa da Universidade Federal do Paran√° (UFPR), para explicar os conceitos e propriedades dos elementos qu√≠micos. Outro jogo usado foi Batalha Naval, para ensinar dados dos elementos qu√≠micos, como per√≠odo, n√ļmeros atômicos e raio atômico.

"Aplicamos um question√°rio com perguntas abertas sobre a tabela periódica e as respostas dos alunos foram muito frustrantes. Na outra semana, utilizamos os jogos e, depois, aplicamos o mesmo question√°rio. As respostas foram gratificantes", conta. Ao final, 98% dos estudantes disseram que gostaram da aula.

Desafios da educa√ß√£o em pris√Ķes

Segundo a professora do Departamento de Teorias do Ensino e Pr√°ticas Educacionais do Centro de Educa√ß√£o da Ufes Mari In√™z Tavares, orientadora do projeto, ainda s√£o poucas as pesquisas e os materiais desenvolvidos especificamente para o p√ļblico adulto. S√£o ainda mais escassos os estudos voltados à educa√ß√£o de pessoas privadas de liberdade. No trabalho, foi preciso adaptar o jogo para esse p√ļblico espec√≠fico.

"Tem que ser um material que priorize a memória, j√° que eles n√£o podem levar para dentro da cela nem para estudar nem para jogar. Tem que ser um material que facilite ao professor o controle visual enquanto est√° trabalhando com alunos, porque eles n√£o podem esconder material com eles e levar. Se isso ocorrer, deve ser comunicado à seguran√ßa. E, tem que ser material um barato, leve, que seja f√°cil do professor levar para sala de aula", explica. "O trabalho tem chamado aten√ß√£o. Eu tenho recebido mensagens de professores e alunos de mestrado que trabalham no sistema prisional, que est√£o desenvolvendo pesquisas e que est√£o em busca de materiais."

Pela Lei de Execu√ß√£o Penal, Lei 7.210/1984, os sistemas de ensino devem oferecer aos presos cursos supletivos de educa√ß√£o de jovens e adultos. Foi acrescentado à lei, em 2015, a oferta do ensino médio, regular ou supletivo, com forma√ß√£o geral ou educa√ß√£o profissional de n√≠vel médio, visando a universaliza√ß√£o desta etapa.

Atualmente, de acordo com o Departamento Penitenci√°rio Nacional (Depen), h√° cerca de 750 mil pessoas cumprindo pena em unidades prisionais no Brasil. Destes, 93 mil - o equivalente a 12% - estudam, seja na alfabetiza√ß√£o (9,7 mil), no ensino fundamental (31 mil), no ensino médio (15 mil), superior (738) ou em outras atividades educacionais.

Impactos da pandemia

Hoje, formada, Iara segue dando aulas para pessoas privadas de liberdade, além de lecionar também escolas regulares. "Se me perguntassem se eu prefiro o sistema prisional ou aqui fora, eu digo que prefiro o sistema prisional. Muitos deles nunca foram alfabetizados. Tenho um aluno de 58 anos que foi alfabetizado no sistema prisional. Agora ele est√° no regime semi-aberto. Ele fala "hoje eu consigo ler"", conta e educadora.

Com os jogos, ela também impactou os alunos. "Teve uma fala de um estudante de que naquele momento do jogo, ele esqueceu que estava em uma cadeia, esqueceu dos problemas que tinha na cela dele. Aquilo me chocou muito."

Durante a pandemia, a educa√ß√£o foi afetada como um todo. Nas pris√Ķes, no entanto, a internet n√£o é uma op√ß√£o para a educa√ß√£o. "Nós selecionamos os conte√ļdos e fazemos um question√°rio para eles responderem. A gente nota uma dificuldade muito grande porque eles n√£o t√™m muito recurso, t√™m dificuldade de entender", diz, Iara.

Segundo o Depen, até o final de mar√ßo foram confirmados 46.889 casos de covid-19 no sistema prisional, com 143 óbitos em decorr√™ncia da doen√ßa.

Foto:Ufes Fonte:AgenciaBrasil

Fonte: Agência Brasil

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